Por que navio é 'she' em inglês marítimo
Quem começa a ler documento em inglês no porto tropeça nisso na primeira semana. O navio aparece como she, mesmo tendo nome de homem, mesmo sendo um porta-contêineres de trezentos metros:
She is expected to berth at 1400.
Her draft forward is 8.2 metres.
Não é erro de quem escreveu. É um costume antigo, e a explicação que mais circula no cais não é a verdadeira.
A explicação que você já ouviu, e que não se sustenta
A versão popular diz que o navio é "she" porque o marinheiro passava meses longe de casa e tratava o navio como uma mulher, ou porque a figura de proa era feminina. É uma boa história e aparece em todo lugar. O problema é que ela explica o sentimento, não a gramática.
O inglês antigo tinha gênero gramatical, como o português. Muitas palavras ligadas a embarcação eram femininas, e o latim ajudou: navis, navio, é palavra feminina. Quando o inglês perdeu o gênero das coisas e passou a usar "it" para tudo o que não é gente, alguns termos ficaram para trás, presos no uso técnico. Navio foi um deles. O mesmo aconteceu com países em textos antigos e com máquinas de estimação, como quando alguém chama o próprio carro de "she".
Ou seja: não é romantismo de marinheiro, é uma sobra de gramática que a comunidade náutica manteve viva por tradição.
O que mudou em 2002
O Lloyd's List, jornal do setor marítimo que existe desde o século XVIII, anunciou em 2002 que passaria a escrever "it" no lugar de "she". A justificativa foi simples: manter a linguagem do jornal em pé de igualdade com a de qualquer outra área de negócios.
Desde então o uso se dividiu, e hoje é assim:
- Documentos técnicos, regulatórios e contratos modernos tendem a usar it.
- Comunicação tradicional, publicações do setor, comandantes e boa parte da correspondência de agência ainda usam she.
- Nomes próprios de navio aparecem sem artigo em inglês técnico:
MV Atlantic Star departed at 0600, e não "the MV Atlantic Star".
O que você deve escrever
Se você é agente, operador ou surveyor escrevendo para fora, a regra prática é uma só: acompanhe quem escreveu primeiro. Se o email do armador diz "she", responda com "she". Se o charterer usa "it", use "it". Não é assunto que valha uma discussão de estilo no meio de uma operação.
Numa comunicação nova, em que você começa, the vessel resolve tudo e não
compromete ninguém:
The vessel is alongside berth 3.
The vessel completed cargo operations at 1930.
As formas que aparecem no dia a dia
| Em inglês | Como aparece | Em português |
|---|---|---|
she |
She sailed at 0600. |
ela, o navio |
her |
Her ETA is 1400. |
dela, do navio |
the vessel |
The vessel is ready in all respects. |
a embarcação |
the ship |
The ship's agent will attend. |
o navio |
MV, MT, MS |
MV Atlantic Star |
motor vessel, motor tanker, motor ship |
Repare no the ship's agent: o apóstrofo aparece porque a palavra navio, mesmo
não sendo gente, aceita a forma de posse em inglês técnico. É outro resto do
mesmo costume.
Por que isso importa mais do que parece
Trocar "she" por "it" nunca causou atraso de operação. Mas ler um documento sem entender que "her draft" quer dizer o calado do navio, e não o calado de alguém, já causou. Inglês marítimo tem dezenas dessas heranças, e cada uma delas é uma pequena pedra no caminho de quem aprendeu inglês na escola e agora precisa ler um Statement of Facts.
Se você quer ver de perto outras palavras que ficaram do jeito antigo, dois casos valem a leitura: os nomes dos lados do navio, em port e starboard, e as palavras do rádio, em roger, over e wilco.
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